FÉRIAS NA PRAIA Pt3

Parte 3 SEBO NAS CANELAS

Pois é, minha vida estava ótima, e todo dia tínhamos que ligar para o QG para informar que ninguém estava tinha sido estuprado, assaltado, comido por um tubarão ou usando drogas. Foi em uma dessas ligações que o W. falou a pior coisa pra pessoa errada, nossa avó, amo minha vó, adoro ela, mas a coitada tem uma língua que não cabe na boca, acontece que o W. ligou pra ela e no meio da conversa ele comentou que “tava tudo bem ele só sentia falta de comer feijão” só que ele esqueceu de adicionar que ninguém fazia feijão por pura preguiça mesmo, às vezes nem fazíamos comida comprávamos marmita mesmo, o cérebro da minha avó filtrou algumas palavras e na hora de retransmitir a mensagem ela disse mais ou menos o seguinte: “Gente as crianças tão morrendo de fome a G. não trata deles tá faltando comida em casa eles tão comendo só os restos das pizzas onde eles tão trabalhando, nem roupa limpa eles tem…”.
Não preciso mencionar a enxurrada de ligações de desabou em SC ORDENANDO que voltássemos, isso a alguns dias do réveillon, explicamos que focinho de porco não era tomada e acabou ficando tudo bem, pelo menos até a véspera do réveillon.
Na véspera do réveillon meus primos tiveram que trabalhar naturalmente, eu fiquei em casa de boa até 1 hora da manha mais ou menos, quando fui até a pizzaria acompanhar meus primos como de costume, mencionei que o bairro em que a gente estava era meio barra pesada? Então, as ruas lá ainda não estava pavimentadas, algumas eram de areia, os postes de luz funcionava um, faiava o outro, passei na área dos moto clubes para dar mais uma apreciada nas maquinas, mas não tinha ninguém, as ruas periféricas viraram cenário de Racoon City, e fui entender o motivo quando cheguei na avenida principal, toda a galera da cidade estava concentrada lá, foram poucas as vezes em que vi tanta gente reunida em um único espaço, o local estava me lembrando as festas dos “Velozes e Furiosos”, carros fodas, mulherada com pouca roupa, som alto e muita bebida. Quando cheguei na pizzaria que estava quase fechando, vi que o W. e J. estavam recebendo o pagamento, acho que ela ganhavam por semana, não me lembro direito, só sei que o gordo lá estava dando uma parte do dinheiro e depois do réveillon ele daria o resto porque a gente voltaria para Toledo e tinha que acertar as contas, no caminho pra casa, a fuzarca que o pessoal tava aprontando na rua estava tomando proporções épicas, os único estabelecimentos que não tiveram o bom censo de trancar as portas e colocar algo bem pesado atrás eram os que vendiam bebidas, o carros que tentavam passar pela avenida eram parados em uma espécie de pedágio alcoólico, se quisesse passar o motorista tinha que dinheiro ou bebida, como eu e o W. éramos (éramos?) meio psicopatas ficamos convencemos a J. de ficar por ali, observando o circo pegar fogo, (convencemos: ou fica com a gente ou vai sozinha) ficamos perto de uns motoqueiros com roupa e couro motos customizadas e tal, o W. achou mais prudente, se acontecesse uma confusão teriamos os motoqueiros como escudo humano, e atrás da gente tinha um muro convenientemente baixo, onde uma possível fuga rápida seria possível.
O clima começou a pesar quando uma galera subiu em caminhão transportando um container, mas também o que o motorista tem na cabeça de passar por ali bem naquele momento? Cerca de uns dez maluco subiram no contêiner com garrafas de vodka enquanto dançavam ao som de festa no apê que estava no auge daquele verão, não demorou muito pra aparecer uma viatura, UMA viatura, com dois policiais, pra uma multidão ensandecida de milhares que estavam ao longo da avenida, se bem que um deles estava portando o que aparentava ser uma submetralhadora, veja bem, aparentava, estávamos a uma distância de mais ou menos cinquenta metros e com um exercito de armários na nossa frente não dava pra identificar a artilharia do “Dotô Otôridade” lá na frente, a J. repetia “vam pra casa” uma vez a cada 1,2 seg. porem, uma retirada naquele momento poderia colocar em cima da gente uma culpa que não tínhamos, e optamos por ficar, afinal, se desse merda, os primeiro que iriam pra porrada eram os cara do cuecão de couro logo em frente.
A simples presença dos policiais fez com que o som magicamente se desligasse, e os malucos em cima do contêiner se materializassem para o nível da rua, e agora que estou relembrando, a avenida se tornou transitável para carros novamente, entretanto eles eram apenas dois, como já tido e volta e meia alguma voz do além proferia algum insulto, com a densa camada de multidão que se aglomerou na calçada, eles não poderiam identificar os meliantes, tampouco prende-los afinal, ele teriam que se distanciar do carro e imagino que a turba que atacaria eles, seria o mais próximo de um ataque zumbi que eu presenciaria.
Os insultos começavam a aumentar, e algumas ameaças também surgiam, os policiais com infinitamente mais bom censo do que qualquer pessoa ali (talvez mais que todos juntos), entraram na viatura e se pirulitaram, ao som de gritos e sob uma chuva de copos descartáveis.
Neste momento foi o verdadeiro “RELEASE THE KRAKEN”, a multidão ficou alucinada com a “vitória” sob as autoridades e com a segurança de que eles não voltariam reiniciaram a balburdia. A esta altura do campeonato a J. já queria nos arrastar dali, mas o W. e eu com mais hormônios do que neurônios, optamos por continuar ali, essa, foi uma péssima ideia (como se as anteriores fossem geniais), porque 10 min, os policiais voltaram, e trouxeram companhia, muita companhia, quando vi aquele exercito de uniformes azuis eu pensei: Fudeu. Mas por um momento eles não fizeram absolutamente nada, assim como da vez anterior, quer dizer, quase nada, tentaram prender um loiro cabeludo que teve a genial ideia de resistir a prisão, é lógico que levou umas porradas, algumas amigo do cara resolveram partir pra briga também, aí virou pancadaria generalizada, alguns policiais vieram na nossa direção, e tal como previsto nossa escudo humano se mostrou útil, já que os policiais começaram a bater neles primeiro, antes de empreender fuga, nossos olhos vidraram por um momento e vi que alguns policiais já estavam atirando na multidão (balas de borracha logicamente), e outros lançavam bomba de efeito moral, nossa catarse acabou a disparamos em direção ao muro as nossas costas, corremos feito loucos seguidos por outros desesperados, por dentro do quintal de uma casa e tal qual parcuristas com 10 anos de experiência pulamos o muro tocando nele apenas com uma mão, jamais seria capaz de repetir a façanha em circunstâncias normais. Porém a J. ficou pra trás e não conseguia pular o muro, o W. voltou pra buscar ela, e praticamente arremessou a menina que raspou toda a barriga no muro, caímos em lote baldio e cheio de matagal, corremos o máximo possível e decidimos andar, se alguma patrulha nos encontrasse ofegantes teria a certeza de que estávamos fugindo da ação policial e seus cassetetes entrariam em ação, andávamos quase correndo e a J. teve a ideia de voltarmos pra avenida principal, que era mais iluminada, dobramos para a esquerda e nos dirigíamos para a avenida quando um pessoal que estava do outro lado da rua começou a chamar e gritar pra gente.
Não faltava mais nada, escapamos de apanhar de policiais pra apanhar de uma galera na rua? Mas calma, acho que o gás lacrimogêneo colocou o Murphy pra correr e o pessoal na verdade estava querendo nos avisar que não era seguro voltar para a avenida, pois os policiais haviam jogando uma boa quantidade de gás lacrimogêneo, e seria melhor esperam por ali, eles mesmo estamos chorando e espirrando horrores, pelo jeito ele não tinham uma rota de fuga como nós, e pra melhorar eles eram de Cascavel, cidade vizinha à nossa. Ficamos papeando por um tempo, mas a nuvem de gás nos alcançou e os efeitos começaram, aquela coisa queima qualquer lugar onde seu corpo tenha secreções e naquele caso eram os olhos, a garganta o nariz, pulmão, e a queimação faz você chorar e quanto mais você chora, mais ele queima.
Chegamos em casa e contamos pra G. e pro marido dela a confusão, ela ficou emputecida por não termos vindo direto pra casa, mas acabou tudo bem e fomos dormir.

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